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O que torna o real banal

Por Lenize Freitas Lopes.

Há algum tempo venho observando, tanto em minha experiência em consultório quanto no dia a dia que, a vivência da depressão tem se tornado algo comum, como patologia e, também, como momentos em que o indivíduo se sente deprimido ou entediado.
Os relatos que as pessoas deprimidas ou entediadas nos trazem revelam que tudo passa a ser banal e sem atrativo.
A questão da banalização da realidade foi pensada a luz do sentir-se entediado e deprimido.
Procurei indagar algumas pessoas, aleatoriamente, sem partir de nenhum critério pré-estabelecido. Na verdade, levantei um questionamento sobre o que torna o real banal.
Por banal, entende-se o comum, vulgar, trivial, insignificante, aquilo que não tem importância, irrelevante, inútil.
Diante da fala dessas pessoas, observei que , dentre as respostas ouvidas, algumas falam da banalização da realidade como auto-defesa das coisas ruins que fazem parte dela. Para exemplificar, podemos citar situações como a miséria, injustiças sociais, a violência, a precariedade de oportunidades de trabalho, entre outras, que muito nos incomodam.
Parece que procuramos amenizar esse incômodo atribuindo ao sistema político e aos "poderosos" a total responsabilidade por tais situações. Responsabilizando o outro, negamos uma responsabilidade que, também, é nossa. Dessa forma, tentamos ignorar que somos tão indigentes quanto as vítimas das situações citadas como exemplo. Se não aceitamos a culpa, tampouco aceitaremos a responsabilidade e, sem responsabilidade não passaremos de vítimas.
Somos todos humanos e isso não nos confere nenhuma garantia ou proteção. Iludimo-nos quanto a nossa indigência e acabamos por ignorar o verdadeiro significado que esses fatos têm para cada um de nós. Encobrimos nossas dificuldades e pagamos o preço de ver nossos horizontes, consideravelmente reduzidos. Com isso, vamos nos isolando, colocando-nos cada vez mais fora da situação, o que vai gerando um individualismo que acaba por destruir as relações, diminuir a nossa capacidade de questionar e se indignar, enfim, de sermos tocados, restringindo o nosso modo de ser.
Negar a realidade, recusando o que nos é dado por ela, é reduzir o âmbito de nossas possibilidades, ferramentas essenciais na construção de nossa história.
Tudo que o homem tem, de bom ou ruim, foi doado pelo mundo, é dado de graça, ou seja, é o que a vida lhe oportunizou naquele momento da sua existência. Não dá para negar. A possibilidade está em acolher ou recusar.
Acolher é aceitar e possibilita o cuidar da nossa existência, construindo-a junto com aquilo que nos é dado naquele momento. Acolher implica em deixar ser, ou seja, estar aberto e em disponibilidade para receber o que a vida nos oferece e incluir apropriadamente a nossa finalidade. Exemplificarei de forma simples: Não contamos ter uma perna quebrada no dia do nosso baile de formatura mas, é uma possibilidade. Podemos deixar de ir ao baile, perdendo todas as oportunidades, expectativas e experiência que este poderá nos proporcionar. Podemos ir e aproveitá-lo em tudo aquilo que não está restrito a uma perna quebrada. Só não podemos negar que temos a tal fratura pois ela estará lá cobrando-nos o cuidado necessário à sua reconstituição e reintegração adequada no nosso dia a dia.
Recusar o que nos acontece limita nossa visão de mundo, confinando-nos num espaço existencial reduzido.
A psicoterapia favorece promover a aceitação e compreensão do que nos é dado, pois é um processo que acontece a partir de uma convocação pessoal e conseqüente comprometimento com a construção e realização de nossa existência.
Nós, enquanto existência humana, temos a tarefa de trazermos à luz o conjunto de possibilidades mais próximas e aprendermos a dispor dele livremente, num movimento disponível, criativo, aberto às significações de nosso mundo, dimensionando nossa existência de forma significativa e peculiar.
Outras respostas que se destacaram dizem respeito ao estar "saturado", "de saco cheio", em outras palavras, fala da falta de esperança no futuro, do desânimo, de não ter ou não saber o que fazer com tal estado de coisas.
É interessante refletirmos esses termos pois eles nos remetem, imediatamente, a vivência do indivíduo entediado - aquele que preencheu todos os espaços, acumulou significados que não fazem mais sentido, que não têm mais finalidade, restringindo sua liberdade a ponto de não poder acolher mais nada. Perdeu a sua disponibilidade para o novo.
O estar disponível para o novo é o que nos torna livres para realizar o inesperado e modificar nossa destinação. A liberdade está na possibilidade de acolher o novo, questionando-o, avaliando-o, conhecendo-o mais intimamente e integrando-o a nossa existência. Ser livre é poder ser, é poder vir a ser, é uma constante construção.
Vista dessa forma, podemos dizer que a liberdade é o habitat do homem , pois nela reside a possibilidade de começar sempre e de novo. Entretanto, não é sem dificuldade que empreendemos tal jornada.
A necessidade de mudança traz consigo o medo do que não conhecemos, a angústia de estarmos lançados num espaço onde não temos intimidade, onde o familiar perdeu-se. Mas, ainda assim, começar é preciso e só se torna possível a partir deste vazio onde os antigos modelos, velhos hábitos e conceitos ultrapassados cederam lugar para novas significações.
Esse vazio é o espaço de disponibilidade que torna possível acolher a novidade do que se apresenta e inaugurar o inédito. Nesse espaço não há lugar para o passado enquanto fonte de determinação. O passado, aqui, é fonte de significação, é ponte para o futuro.
Nas últimas respostas obtidas, alguns entrevistados relacionaram o banal com aquilo que é familiar, rotineiro, alegando ser , o já conhecido, bem pouco surpreendente.
Mais uma vez, remetemo-nos à vivência do tédio, onde tudo é sempre igual, as coisas não nos dizem respeito, o tempo é longo e sem finalidade e nada se renova. Neste ponto, identificamos mais facilmente os conflitos do indivíduo entediado. Ele nega sua indigência e sua impotência diante daquilo que desconhece, nega o caráter passageiro do tempo, a provisoriedade das coisas que lhe são pertinentes, constrói uma realidade imóvel para poder dominá-la.
Esse percurso parece apontar para uma fuga. É da angústia que o homem tenta fugir a qualquer preço - a angústia de se saber solitariamente responsável pelas próprias escolhas e decisões. E, nessa fuga, ele pode se deparar com a depressão, que é não dizer respeito a nada, não ter projeto nem destinação.
Poderíamos pensar que isso é muito ruim, e até é. Entretanto, será que é só ruim? Ou é, também, uma oportunidade, na medida que ele poderá se apropriar dessa experiência que está vivendo, pois em nenhum outro momento estará tão livre para refazer o rumo das coisas?
Não estar ligado a nada é a oportunidade de poder ser convocado a buscar a sua finalidade e essa busca só pode se dar no âmbito da liberdade - liberdade para reencontrar o sentido, o sonho e a esperança. Aprender a sonhar é importante para recuperar a finalidade pois sonhar é estar disponível para esperar. A perspectiva da esperança propicia o movimento necessário para que a existência se enraize no mundo e se abra às possibilidades do sentido.
O que torna o real banal é a tentativa de tornar previsíveis todos os nossos dias; de antecipar os desafios e as armas com que enfrentá-los; é a ilusão de se evitar os riscos e se munir de garantias; é estar no mundo sem habitá-lo, ou seja, não ter com ele aquela relação de correspondência que nos permite ser com tudo que aparece e acontece nele.
Habitar é transformar e ser transformado, é poder ouvir o que nos apela, é com-formação, é com-fiança, é ser essencial a nós mesmos. Quando somos essenciais a nós mesmos, já não ficamos tentados a ter aquilo que não nos serve mais e que entulha a vida.
O real é sempre um movimento de realização. Nunca é algo estático. Tal como o mundo, o real é um vir a ser constante.
Viver não exige mais do que um compromisso com a vida. Existir é o compromisso com o sentido; é significar e resignificar a vida a cada momento; é a disponibilidade estendida para construção, realização e desdobramento da nossa existência e de tudo aquilo que se oferecer a nossa guarda e cuidado.

- Palestra que integrou o projeto "Participação" do Grupo de Estudos da Existência, realizada em l999 no Espaço Devir - Santos, SP.

 

Por Lenize Freitas Lopes.

CRP. 16.918/06
Psicóloga e Supervisora Clínica, Licenciada e Bacharel em Psicologia
Pela Universidade Católica de Santos.
E-mail:
lenize.freitas@ig.com.br

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