ASSÉDIO MORAL: O FRÁGIL PODER DOS IMPOTENTES. |
Por Lenize Freitas Lopes.
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Atualmente, um assunto aparentemente
novo tem circulado nos meios organizacionais. Trata-se do assédio moral, já discutido em
sua vertente sexual mas só recentemente dimensionado nessa nova direção.
Por assédio, entende-se o ato de importunar um indivíduo, molestando-o e hostilizando-o
com insistência para atingir objetivos próprios. Falamos, aqui, de uma prática antiga e
perversa do poder que atinge a auto-estima daqueles que são submetidos a ela, reduzindo
seu potencial criativo. É o mau uso da autoridade, ou melhor, o abuso do autoritarismo
que, agora, ganha um nome: assédio moral.
A sociedade despertou para o assunto com a publicação do livro "Assédio Moral - A
violência perversa no cotidiano" - Ed. Bertrand Brasil, da psiquiatra Marie France
Hirigoyen.
São inúmeros os danos causados ao estado físico-emocional daqueles que sofrem o
assédio: alterações do sono, distúrbios alimentares. diminuição da libido, aumento
da pressão arterial, desânimo, insegurança, entre outros, podendo acarretar em quadros
como o pânico e a depressão.
Aquele que comete o assédio parece encontrar em sua vítima uma via de ascenção e
afirmação de seu poder e superioridade. É o exemplo de chefes que gritam e humilham
seus subordinados, professores que ridicularizam e constrangem seus alunos, pais que
desrespeitam e agridem seus filhos com palavras ou gestos, cônjuges que menosprezam seus
companheiros, etc...
Analisar os motivos que fazem de um indivíduo "agressor" ou
"vítima", torna-se necessário para um melhor entendimento dessa questão.
Detendo-nos em uma simples reflexão, poderemos observar que se o agressor necessita
humilhar o outro para afirmar-se enquanto poder, ele mesmo já está revelando o quanto
teme o poder de sua vítima e o quanto desconfia da sua competência. Des-confiar
significa sem confiança que, por sua vez, implica em não contar com o aval do outro -
com-fiança. Esse aval é o que legitima nossa credibilidade e competência. Se não
acreditamos em nossa capacidade, aptidão e idoneidade para resolver os assuntos que nos
competem, então, a ação tem que ser no grito, na opressão e humilhação do outro,
porque na desvalorização do outro pode-se encobrir a nossa fragilidade e indigência.
Autoridade e autoritarismo não são a mesma coisa.
O autoritário age com vistas na dominação do outro, aprisionando-o para que ele não
constitua ameaça à sua frágil confiança. A autoridade, por sua vez, age com poder
legítimo, ou seja, consciente de suas competências, conhecimentos, possibilidades e
limitações, propiciando ao outro o espaço de liberdade onde as coisas podem aparecer,
serem criadas, desenvolvidas e transformadas.
Não podemos negar, entretanto, a existência de personalidades mórbidas, sustentadas por
uma racionalidade destrutiva, onde o cuidar de si e do outro é amoral e perverso. Mas,
dada a complexidade do assunto, fiquemos na abordagem filosófica do tema e suas
provocações que muito contribuem para ampliar nosso horizonte existencial.
Muitos de nós temos uma conduta acomodada, acolhida pelo paternalismo no qual fomos
educados e temos dificuldade de encarar e acreditar naquilo que vemos e sentimos mais
intimamente. Não fomos encorajados a questionar e sim a aceitar o que nos é imposto
através da cultura e dos valôres sociais.
Atualmente, a ameaça de desemprêgo, a crise econômica e a super valorização do ter
sobre o ser tem gerado muitos agressores e muitas vítimas. Mas, como se costuma dizer:
"Para todo sádico, sempre há um masoquista".
As supostas "vítimas" de assédio parecem optar pela cômoda posição de não
ser responsável por seu destino; não tomam o gesto como uma ação que é sua; não
percebem que optar por ser "vítima", também, confere-lhes culpa e
responsabilidade. Em outras palavras, é a vítima que alimenta o agressor.
Avaliando mais detida e realisticamente o que já foi dito, compreenderemos que não
existem nem "vítimas" nem "agressores", ou melhor, nem culpados, nem
inocentes. Todos nós somos capazes e responsáveis por como somos e vivemos. Citando
Guimarães Rosa: "Tudo que acontece, carece e se merece".
Faz-se imprescindível, no entanto, um sério investimento no âmbito da Educação, onde
o projeto maior seja o desenvolvimento do homem em sua credibilidade, senso-crítico,
ética e respeito pelas idiossincrasias humanas.
A tarefa do homem é ser e fazer história. Poder ser é a liberdade fundamental para que
não nos encerremos em cada ato, que não nos esgotemos em cada palavra. Seremos sempre
responsáveis pelo nosso ser e vir a ser. A nossa construção, mais ninguém a fará.
Nossa escolha sempre será solitariamente nossa.
Cabe-nos, então, cuidar de nós e do mundo para que nossa existência seja uma
construção significativa, uma história que fará diferença e dará legitimidade a todo
o nosso fazer.
Que possamos ser, simplesmente, homens que tem a vida como tarefa, infinitas
possibilidades e um desejo enorme de acertar.
Por Lenize Freitas Lopes. |

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CRP. 16.918/06
Psicóloga e Supervisora Clínica, Licenciada e Bacharel em Psicologia
Pela Universidade Católica de Santos.
E-mail: lenize.freitas@ig.com.br |
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